Candidato Abílio Freire já observou mais de 60 jogadores para a próxima temporada do Bahia

foto: Jeruan Araujo/Resenha na Rede

No próximo dia 9 de dezembro o Bahia passará por sua terceira eleição direta. Desde 2014, quando o clube passou por intervenção judicial que culminou com a deposição do presidente Marcelo Guimarães Filho, o clube se tornou democrático e tem sua diretoria executiva e conselho deliberativo escolhidos por sócios ativos através do voto direto. De lá pra cá, o Bahia foi presidido por Fernando Schmidt, que foi eleito para mandato-tampão com duração de cerca de seis meses; e por Marcelo Sant’Ana, que se consagrou vencedor da eleição para o primeiro triênio do clube pós-democracia. A primeira eleição aconteceu em 2013 e, após cumprir mandato de pouco mais de um ano, aconteceu a primeira grande eleição do clube no final de 2014.

Cinco chapas se inscrevem para o pleito executivo, que elege presidente e vice-presidente, deste ano. Os chamados “cabeças de chapa” são Abílio Freire, Binha de São Caetano, Fernando Jorge, Guilherme Bellintani e Nelsival Menezes. Apoiados por Virgílio Elísio, Zé Tricolor, Antônio Tillemont, Vitor Ferraz e Walisson Silva, respectivamente.

Nos próximos dias, o Resenha na Rede trará uma série de entrevistas com o público. O segundo entrevistado da série é Abílio Freire, candidato a presidente na chapa Mais um, Baêa!. Junto a Abílio Freire está Virgílio Elísio, nome conhecido no futebol nacional e que atuou como diretor de competições da CBF. A chapa atende pelo número 10.

A entrevista aconteceu na última quinta-feira, 23, no escritório que o advogado Abílio Freire trabalha. Ele falou sobre sua relação com torcidas organizadas, sua participação durante a intervenção e apresentou suas propostas para a gestão do Esporte Clube Bahia durante o próximo triênio. Confira, abaixo, a entrevista completa:

Um dos pontos mais elogiados nq intervenção do Bahia foi a possibilidade de real abertura do clube. A criação do MUB [Mais Um, Baêa!] foi pautada em fazer parte da direção do clube?

“Não. O clube, quando foi democratizado, nós participamos não-ativamente, mas como torcedores. Houve um certo distanciamento porque nós não tínhamos proximidade com as pessoas que estavam envolvidas naquele processo. Como Advogado, sabia que a liminar concedida poderia ser revogada e torcíamos para que tudo desse certo.

O MUB surgiu de uma dissidência de outro grupo, no qual tínhamos um conjunto só de advogados -tanto torcedores do Bahia, como do Vitória- e isso acabou gerando um desconforto entre as pessoas amigas. Resolvemos manter o grupo para falarmos somente de assuntos jurídicos e outro grupo para falar somente do Bahia. Inicialmente seis pessoas que discutiam o dia-a-dia do time. Após um ano de criação e durante a democratização do clube, abrimos o grupo para mais pessoas e a coisa foi crescendo. Fizemos a assembleia de fundação (2015) do MUB com 82 pessoas, passados dois anos e meio temos 80 grupos de whatsapp e um pouco mais de 9 mil pessoas. Nossa rede social mais forte é o Instagram com 40 mil pessoas e 4 mil pessoas no Facebook.”

Abílio em campanha nos arredores da Fonte Nova. Foto: Reprodução/Site Mais um, Baêa!

Um dos grandes prejuízos da eleição em dezembro é o curto espaço de tempo para organizar o clube para próxima temporada. Quais as dificuldades em conciliar uma campanha e fazer uma pré-organização do time de futebol?

“Essa pergunta tem muito importância. De fato, trazemos como sugestão de mudança de Estatuto que a eleição ocorra em agosto ou setembro para que a gestão que seja empossada tenha tempo para tratar dos assuntos do Bahia e para trabalhar. O Presidente e vice podem negociar com o nome e a marca do Bahia, porque se você estando fora como pré-candidato ou candidato, o seu poder é muito menor para negociação.

Hoje nós fazemos uma campanha, mas desde maio estamos fazendo esses atos preparatórios de conversa com jogadores, treinadores. Ou seja, nos antecipamos porque nós entendiamos que chegaríamos com a real hipótese de ganhar a eleição e não poderíamos chegar para conhecer, mas sim para fazer. Tínhamos que esperar para ver o que essa gestão deixaria como espinha dorsal para o time, já que os contratos da maioria dos jogadores se encerra ao final do ano e saber se haveria renovações.”

“Temos um grupo que avaliou 68 atletas, equipe esta formada por mim, Aldo França [em caso de eleição, será o diretor de base], Oscar Virgílio Elísio e Éder Aleixo, que será nosso diretor de futebol. Além disso, temos pessoas que fazem análise de jogos, desempenho, jogadores e mercado, este o último é a nossa principal, pois ele vai avaliar a questão financeira e contratual de cada um dos atletas analisados, indicando para gente o momento para contratar um jogador. Esperamos fazer contratações pontuais e dois ou três jogadores tarimbados, que possam sair dos seus clubes e ainda tenham rendimento para o futebol e completar o elenco com jovens como Zé Rafael, que para mim foi a maior contratação da gestão atual, porque é jovem, tem boa técnica, chegou a baixo custo e resultará retorno para o clube. Precisamos focar em contratações e ter responsabilidade em contratar, partindo da seguinte premissa: a resposta técnica sempre existirá se tiver uma resposta financeira, ou seja, quero alguém que possa se valorizar no meu clube e valorizar o clube junto com ele, quando sair vai deixar saudade e o caixa abastecido.”

Quais jogadores o candidato pretende manter no elenco para a temporada de 2018?

“O objetivo da gente é manter Jean, Tiago, Renê Junior, Zé Rafael, Edigar Junio, Capixaba e Juninho. Allione precisamos avaliar a questão contratual. Entendemos que se eles estivessem lá fora nós iríamos buscar. Um dos grande males do enfoque empresarial é não saber valorizar quem já é o seu cliente. O jogador não se apega a camisa e nós temos que entender que a camisa não pode se apegar a jogador. Por exemplo, se o jogador pode dar um bom retorno na sua saída, um abraço e podemos buscar no mercado ou encontrar na base um outro grande valor, todos são substituíveis, o único que não pode ser substituído é Deus. Um clube como o Esporte Clube Bahia, que tem sua capacidade financeira reduzida, não tem as beneficies de outros clubes, tem que compensar no Nordeste com competência, então temos que contratar bem.”

Sabe-se que o futuro dos clubes brasileiros está ligado a quantidade de sócios, que gera uma receita extra positiva. Com 16 mil sócios, qual a dificuldade do clube em reverter a nação tricolor para uma nação de sócios?

“As pesquisas mostram que o Bahia tem entre 4,5 e 5 milhões de torcedores. Dentro desse universo [o fato de] você ter 16 mil torcedores, informações passadas pelo próprio clube, é incompreensível. Acho que essa falta de tesão do torcedor em se tornar sócio ou continuar como sócio perpassa por algumas situações. Dentre elas, nós não percebemos no Bahia um trabalho de fato para sedução do torcedores, primeiro porque nosso sistema de sócio é muito fraco. Não leva em consideração o perfil do nosso torcedor, funciona como algo ‘se gostou venha, se não gostou problema seu’ e no mercado não pode ser assim, temos que respeitar o perfil de cada pessoa e ter um produto para cada perfil. O fato de Abílio ir a todos os jogos, não o torna mais torcedor do que Joãozinho que só vai a dois jogos ou aquele torcedor que só vai na final. Pretendemos fazer com que o torcedor de entrada garantida, anuncie com 72 horas de antecedência que ele não vai para o jogo, a carteira dele não funcionará naquele jogo e este acesso será comercializado pelo clube por valores menores, um bolsão de ofertas de ingressos. Assim, vamos possibilitar que torcedores de baixa renda estejam inclusos no sistema e o valor que foi disponibilizado será convertido em pontos para o torcedor que cedeu o ingresso e esses pontos serão utilizados para descontos do pagamento da mensalidade ou da anuidade do sócio torcedor, todos ganham.”

“Nós permitiremos que o torcedor possa imprimir o ingresso, tem gente que gosta de colecionar ingresso e nós queremos ter acesso garantido para pessoas que já se declarem que não vão para todos jogos. O torcedor vai escolher antecipadamente os jogos que ele quer, serão lotes de acesso.

Outra novidade é o sócio-família, para que o torcedor possa utilizar o jogo do Bahia como lazer, sendo que o sócio-família contabilizará um voto na eleição, apenas do titular. Além disso, no próprio sistema de sócio torcedor, iremos criar duas faixas para contemplar o torcedor de baixa renda, a faixa de 10 e 20 reais, que são para aqueles que já participam de programas do governo e para aqueles que não participam de programas governamentais, mas farão um requerimento que será chancelado pelo jurídico, mas poderão aderir momentaneamente a esse plano devido a qualquer dificuldade. Teremos planos até mil reais, pois dez pessoas poderiam pagar o equivalente a 250 pessoas. E os direitos políticos? Os sócios de 10 e 20 teriam os mesmos direitos políticos, acrescentaríamos um um requisito contributivo, ou seja, ele teria que pagar um mínimo para concorrer a um cargo.”

O senhor é um candidato apoiado pelas duas maiores torcidas organizadas do clube. Como se dá esse apoio e como será seu comportamento enquanto presidente do clube em relação a futuras exigências advindas desse apoio?

“Tenho uma transparência muito grande no agir. Procurei todas as torcidas e tive apoio de duas. Adoro o torcedor organizado: ele vive muito mais as atividades, ele é um torcedor símbolo. Temos Mamusca, Capitão América, o Superman. Sentamos com ele e dissemos o seguinte: apoio em campanha é uma coisa e enquanto presidente é outra. Estabelecemos o seguinte, quem vai para o jogo trabalhar na torcida organizada merece um benefício. Para essas pessoas a gente vai dar ingressos. Sei que uma bateria de organizada tem no máximo 20 pessoas, então esses ingressos serão dados às pessoas, eles buscarão os ingressos e se esse ingresso for apresentado por outra pessoa será negado. Fizemos um acordo em que entendemos que torcida organizada não é para está fazendo violência. [Desde que estejam] Se comportando como torcedor terão todo apoio de nossa gestão.”

Foi uma conquista da atual gestão salvaguardar a Cidade Tricolor. Como o senhor enxerga o equipamento, ele se tornou um elefante branco?

“Tive recentemente na Cidade Tricolor e tive um acesso externo. O único candidato que tem acesso a coisas e pessoas  que nem os conselheiros tem não sou eu. Quero registrar pois acho isso desigual e covarde, não refletindo à democracia. Pude observar um equipamento extremamente sucateado, imagino que se ali existiam mobiliários e equipamentos acredito que estão sucateados. Nós queremos permanecer com o Fazendão, sendo mantido pelas receitas do clube. Já na cidade Tricolor, queremos levar toda base para lá e [além disso] funcionaria nosso centro de excelência de formação e capitação de atletas. Sabemos como fazer e pretendemos que todo dinheiro investido seja oriundo das verbas da Lei de incentivo ao esporte, através do Ministério dos Esportes. Precisamos apenas estar investidos no cargo de Presidente e Vice-presidente, para oferecermos esse projeto.”

O Bahia tem deixado de lado outras modalidades esportivas, que poderiam agregar valor à marca. O Vitória, por exemplo, vem se destacando no NBB. Seria interessante o tricolor explorar outras modalidades?

“Acredito que quando você tem muitas prioridades, na verdade você não prioriza nada. Nossa prioridade é o futebol. A nossa base formará atletas e criará nossa moeda de troca; nosso sub-17 tem que estar apto para jogar no profissional, ser ambidestro, saber jogar em diversas posições e entender os padrões de jogos de quatro esquemas táticos no momento da sua formação para que a gente possa ter jogadores diferenciados, formados para o mercado. O Bahia precisa ser onipresente, precisa ser lembrado no carnaval, nas festas regionais e ser lembrado em outros esportes. Vamos trazer o futebol feminino, atletismo, boxe, basquete, com verba da Lei de Incentivo aos Esportes. Nosso objetivo é pegar Pituaçu e apresentar um projeto de formação de atleta olímpico, se fariam as reformas necessárias em Pituaçu para atender outras modalidades. Ao Bahia caberia o gerenciamento, precisaríamos do aval do Governo do Estado para que possamos arrendar o estádio de forma gratuita, através de uma lei aprovada na Assembléia Legislativa. Resolveriam dois problemas: primeiro é ter uma praça para o esporte olímpico e segundo nós teríamos finalmente no estádio arrendado, sendo gerido com verbas incentivadas. Lá poderíamos mandar os jogos de outras categorias e de menor expressão do profissional.”

Abílio Freire e seu colega de chapa, Virgílio Elísio. O ex-diretor de competições da CBF é candidato à vice-presidência do clube na chapa encabeçada por Abílio. Foto: Reprodução

Virgílio Elísio é um nome respeitado pela torcida do Bahia, já esteve liderando pesquisas de intenção de voto. Qual foi o segredo para trazer essa peça para chapa e como se deu a escolha por quem seria presidente e vice?

“Virgílio Elísio dispensa apresentação, quem crítica não tem conhecimento de causa. Antes ele estava a serviço da CBF e o que se espera de uma pessoa nessa condição é sua isenção. Agora ele estará dentro do Bahia e poderá fazer muito pelo Bahia. A composição com Virgílio Elísio adveio do fato de que nós já tínhamos uma chapa formada e sabíamos que ele seria um dos nossos opositores, tudo demonstrava que a chapa seria Virgílio e Antônio Tillemont e a nossa seria Abílio Freire e Jaílson Baraúna. Esperamos um pouco a questão do vice, para ver se durante a caminhada apareceria um nome com mais força do que o de Baraúna, tudo isso -claro- bem conversado. Quando estava tudo certo para inscrição, Baraúna percebeu nos bastidores que aquilo que estava anunciado, com Revolução Tricolor tendo seu candidato e Simplesmente Bahia tendo outro, não aconteceria, ou seja, eles se juntariam para ficar mais forte. Então Baraúna percebeu que poderia utilizar a vacância de Virgílio Elísio, ele sugeriu o nome, procuramos ele e chegamos um consenso, após ele ver o nosso projeto ele se encantou e hoje temos uma afinidade muito grande. Olhando as três chapas principais, a que apresenta o maior equilíbrio entre força e experiência, razão e emoção, acredito que a nossa é que apresenta melhor. Não sou nenhum cara inexperiente e a composição com Virgílio trouxe força.”

Fernando Schmidt se distanciou da imprensa baiana, o que foi mantido por Marcelo Santanna. Em contrapartida Marcelo conseguiu maior espaço na mídia nacional. Como será sua relação com a imprensa local?

“Respeito muito a profissão de cada um, o que seria dos engenheiros se não existissem os ajudantes de pedreiros e vice-versa. Na imprensa existem pessoas boas e pessoas ruins, isso existe em qualquer lugar, é uma pessoa de caráter, não é profissional. Então queremos ter uma grande relação com a imprensa, esperamos que a imprensa faça o trabalho dela. Se o papel é perguntar, criticar, nós estaremos próximos da imprensa, não falar, não atender, não existe. Virgílio inclusive é radialista e sabemos os anseios da profissão, o Bahia vai estar de portas abertas, tudo na vida tem limites e esses serão determinados pelo treinador. A marca Bahia será dita por todos e para isso a figura do presidente tem que ser acessível.”

A tragédia da Fonte Nova completará 10 anos*. Como você enxerga as medidas tomadas pelo clube após o acontecimento?

“Não tenho conhecimento de causa se o Bahia ajuda. Hoje por vivermos um Big Brother da vida moderna e nunca tenha chegado nada a respeito, acredito que o Bahia não ajude essas famílias e sobreviventes. Foi uma fatalidade, mas os estudos mostraram que era uma fatalidade anunciada, laudos apontavam que poderia acontecer algo, mas não tenho conhecimento de causa se foi concluído e se houve desenrolar jurídico. Foi um fato que poderia acontecer até mesmo comigo, pois gostava de assistir os jogos junto da Bamor e junto da Povão e naquele dia estava com a Povão.”

*A entrevista foi realizada no dia 23 de novembro, dois dias antes dos 10 anos da tragedia.

 

Osvaldo Barreto
Sobre Osvaldo Barreto 455 Artigos
Advogado. Estudante de Jornalismo (Estácio). Colunista e repórter do Esporte Clube Vitória.

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