Estilo de Vida: Letícia Bastos conta sua história no Karatê

Foto: Reprodução Letícia consagrando seu país após receber premiação na Itália

A prática do esporte pode transformar a vida de um ser humano em diversas áreas, no campo profissional, pessoal, emocional e até psicológico, as artes marciais, em especifico o Karatê, além de produzir um atleta apto em habilidades técnicas, presa pela disciplina, educação moral e formação do caráter, fazendo assim com que além de praticantes, se formem cidadãos.

Ao longo de sua vida no esporte, que desde cedo vem encontrando no Karatê um estilo de vida, a atleta Letícia Bastos conseguiu construir uma carreira consolidada em competições de nível estadual à internacional e contou como tudo isso começou para ela e como lida com sua carreira no esporte. A faixa preta 2° Dan, de 23 anos é uma das atletas baianas mais conhecidas na Federação de Karatê Dô Tradicional da Bahia (FKTB), filiada a Confederação Brasileira de Karatê Dô Tradicional (CBKT), pelo nível técnico e habilidade no esporte, além das qualidades pessoais que adquiriu com todo aprendizado que os lemas do Karatê a ensinou durante os anos praticando o esporte.

RR: Sua carreira no esporte começou muito nova, isso se sucedeu por algum
incentivo ou desde sempre o Karatê foi uma paixão sua?
Letícia: O karatê faz parte da minha vida a muito tempo. Meus tios são karatecas, meu pai é Karateca, minha mãe também! Meu irmão mais velho também foi atleta de seleção baiana e brasileira e meus irmãos mais novos ( 5 e 8 anos) já entraram no Karatê. Sendo assim, desde 1997 entrei no karatê por conta da influência da família, porém, em pouquíssimo tempo o Karatê passou a ser minha paixão.

RR: Qual a sua maior inspiração no esporte?
Letícia: Minha inspiração no Karatê é meu irmão mais velho.

RR: Você ainda lembra da sua primeira competição? Se sim, como foi?
Letícia: Lembro mais ou menos. Minha primeira competição foi no início do ano de 2000, eu era faixa amarela. Nesse mesmo ano, competi meu primeiro brasileiro em Julho.

RR: A graduação de faixa significa além de tudo uma maturidade técnica e pessoal, a partir do momento em que você chegou à faixa preta o que mudou?
Letícia: Cheguei a faixa preta nova, tinha 10 anos. Apesar da pouca idade, senti que a cobrança era maior! Não em relação a competição( ganhar e perder), mas em relação ao comprometimento com treinamentos, comportamento, sempre muito exigido (pelos meus pais), entre outras coisas.

RR: Qual o seu campeonato ou título considerado mais importante?
Letícia: Em todas as competições aprendo muita coisa, são todas especiais. Mas posso citar aqui duas. Uma, foi o Pan Americano de 2016, que foi meu primeiro ano na categoria adulto e consegui me consagrar campeã em duas modalidades individuais. E o outro, foi esse último campeonato Mundial, que também foi meu primeiro campeonato Mundial na categoria adulto e fui campeã nas modalidades por equipe e individual..

RR: Recentemente você participou desse campeonato mundial na Itália, subindo no
pódio em todas as categorias. Fala da experiência que foi participar e do que você
pôde observar quanto ao nível técnicos das suas adversárias.
Letícia: Foi uma excelente experiência, poder competir e também assistir atletas de outros países. Foi minha primeira vez na categoria adulto e é uma sensação muito boa poder estar entre atletas de alto nível.

Foto: Reprodução

RR: Conquistar um título mundial é de extrema importância para qualquer atleta. Na competição você esteve ao lado de diversas atletas mundialmente famosas e consideradas brilhantes no que fazem. O que você sentiu podendo vencer algumas delas e dividindo o pódio com as mesmas?
Letícia: Bom, meu objetivo maior é sempre fazer o MEU melhor, fazendo o meu melhor e podendo estar ao lado delas, pra mim, é uma satisfação imensa.

Com um ano de realizações positivas na carreira esportiva, os novos objetivos continuam a todo vapor em 2018, novas competições virão e para o atleta, a preparação, o cuidado com o corpo, a mente e o aperfeiçoamento contínuo é essencial. O Karatê é um esporte muito importante na Bahia, mais ainda está conquistando o espaço merecido, as Olimpíadas podem ser a grande chave para tornar o Karatê baiano um sucesso muito maior do que o já alcançado.

RR: Você acha que o Karatê na Bahia e no país tem ganhado seu valor merecido ou ainda há o que conquistar?
Letícia: Acho que infelizmente as pessoas ainda não valorizam o karatê da maneira como deveriam. A gente ( karatecas) ainda batalha muito.

RR: Atualmente a maior dificuldade do atleta é encontrar um patrocínio para competições e gastos relacionados, você acha que o esporte se tornando Olímpico isso irá implicar na atenção dos patrocinadores?
Letícia: Sim. O esporte no Brasil infelizmente não é valorizado como deveria. Sendo um esporte amador, piorou. Mas, sendo um esporte olímpico, a probabilidade de conseguir um patrocínio é muito maior.

Foto: Reprodução

As Olimpíadas virão para modificar a historia mundial do Karatê, em 2020 o esporte já entrará como esporte de apresentação e as confederações estão em busca do necessário para levar os atletas para esse grande evento, algumas delas ainda não possuem a filiação pedida para estar nas Olimpíadas, mas ainda há tempo para mudar isso.

RR: Qual a sua Federação? Ela é filiada com a Federação que disputará as Olimpíadas?
Letícia: Faço parte da Confederação Brasileira de Karatê Tradicional. Ela não é filiada com a Federação que está nas olimpíadas, porém estão fazendo “movimentos” para que isso venha a acontecer.

RR: Quanto aos campeonatos em seu país, você costuma competir com pessoas que cresceram no esporte junto com você. Acha que isso facilita ou a dificuldade é maior?
Letícia: Na verdade, eu sou a mais nova da minha categoria! Não costumo competir com quem cresceu junto comigo e sim, com quem eu cresci vendo competir. Isso é um ciclo como em qualquer conjuntura social, a renovação e o encontro de novas gerações, o que acarreta em prós e contras.

Foto: Reprodução
Equipe baiana feminina no Campeonato Brasileiro realizado em Salvador – Ba.

RR: Você faz parte da seleção baiana de Karatê e representa o estado em diversas competições, o vinculo com alguns atletas é inevitável, você acha que isso influencia no desempenho positiva ou negativamente?
Letícia: Positivamente. Tenho amigas que são minhas adversárias e a gente faz da competição uma disputa saudável.

RR: Como você vê o nível das atletas baianas na atualidade?
Letícia: Vejo um nível alto. Não só da categoria adulta, como também das categorias menores.

Para conquistar uma carreira em uma arte marcial, requer uma grande dedicação, de tempo, disposição e muita vontade, mulheres baianas tem se destacado e crescendo neste aspecto, não somente no Karatê, como no Jiu-jitsu, Judô, entre outros, sem se preocupar com rótulos estabelecidos a muitos anos atrás, a arte milenar faz parte da rotina de muitas mulheres, que fazem do esporte mais do que rotina, mas parte de sua vida.

RR: A arte marcial foi um esporte inicialmente de supremacia masculina e as
mulheres durante a evolução do mundo mostraram capacidade igual para executar o esporte, hoje podemos ver diversas mulheres com talentos únicos em qualquer arte. Você já encontrou dificuldades no esporte apenas pelo fato de ser mulher? Sofreu algum tipo de preconceito?
Letícia: O que percebo, é que algumas pessoas ficam surpresas quando eu digo que faço Karatê. Algumas pessoas não acreditam e já me falaram que não parecia, pois sou muito feminina. Porém, nunca sofri nada em relação a isso.

RR: Como funciona seu processo de preparação e treinamento para as competições? E como é a rotina nas épocas de “pausas” dos campeonatos?
Letícia: O karatê diverge da maioria dos esportes, porque traz consigo a parte do Budô (crescimento moral e espiritual), que é o treinamento continuo. Porém, para a competição, existe uma pré-temporada de seletivas e treinos. Mas infelizmente, não tenho o tempo que deveria para treinar as modalidades individuais, por conta dos estudos e do estágio! Sendo assim, dou mais prioridade aos treinos das modalidades em equipe. Nas épocas de “pausas” aproveito para descansar.

RR: Como você concilia o esporte da vida acadêmica, profissional e pessoal?
Letícia: Mesmo com todo desgaste físico e mental do dia-a-dia, consigo conciliar os treinos, que normalmente são a noite e nos finais de semana.

Da melhor forma possível, encontrar no esporte um lugar seguro para aprender e se libertar, vem sido a escolha de diversos atletas, independente da modalidade. A jornada difícil leva a alguns à pausa ou desistência em alguma parte do caminho, mas para aqueles que ficam, escutar o incentivo de atletas mais graduados, que já estiveram no começo assim como eles, pode ser o pontapé inicial para uma geração que se dedique igual ou mais que seus professores, buscando seguir com respeito e disciplina os lemas do esporte.

Foto: Reprodução

RR: A jornada até faixa preta é longa e bastante árdua, qual o conselho você daria para atletas mais novos que estão começando no esporte agora, qual a mensagem ou o incentivo que você deixaria para eles?
Letícia: Aos mais novos, aconselho a buscarem a parte teórica, a se aprofundarem e realmente tentarem praticar a filosofia do Karatê. Da mesma forma que se é buscado o aperfeiçoamento da técnica, devemos buscar diariamente nossa melhora como ser humano. Sempre fazer tudo com muita determinação, dedicação, humildade, solidariedade ao próximo e muito amor. Agindo assim, e praticarem o verdadeiro Budô, todos irão conquistar o que quiserem dentro e fora do Karatê.
Para mim, é recompensador olhar para trás, ver o caminho que trilhei, e quanto o Karatê me deu oportunidade a de ser uma pessoa melhor. Nada se assemelha a sensação de vencer a si mesmo! A persistência desenvolvida e aprendida em cada grau da minha caminhada até faixa preta (até hoje), representa(rá)  os desafios na vida pessoal, que hoje enfrento com mais sabedoria, pois lembro o quão forte posso ser.

Carol Ribeiro
Sobre Carol Ribeiro 72 Artigos
Estudante de Jornalismo (Estácio). Repórter dos esportes.

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