Sobre erros, concessões e bairrismo

Imagem meramente ilustrativa.

Momentos depois de Vitória 3×1 Palmeiras, decidi abrir o Twitter e ver a repercussão da partida. Aí eu me deparo com um twite da Folha de São Paulo, noticiando o jogo. A manchete é no mínimo curiosa: “Palmeiras cede três gols no primeiro tempo e perde para o Vitória.” Me veio na memória as muitas vezes que pedia coisas para a minha amada mãe, e ela me cedia. Porque concessão é basicamente isso: dar algo a alguém. Essa abordagem da Folha não é nova, mas já foi mais grotesca. O leitor que estiver com a memória em dia deve se lembrar da manchete bizarra que noticiou a derrota do líder do campeonato na Arena Fonte Nova, contra o Bahia: “Erros derrotam o Corinthians na Bahia.” Pois é, o Erros Esporte Clube foi bem aplicado naquela ocasião mesmo.

 

Erros Esporte Clube, grande time brasileiro.

 

Esse estilo de comunicação não é exatamente novo, e não é exclusivo da Folha. A lenda da comunicação brasileira e do jornalismo esportivo Galvão Bueno certa vez se referiu como “um vendedor de emoções”, e entre seus métodos está o de criar personagens durante as narrações. O mocinho e o vilão. De forma parecida, redações em todo o Brasil encaram os times de suas regiões como “mocinhos”, e os outros times como “vilões”. Quando eles vencem, a vitória contundente é exaltada com todas as letras. Quando perdem… a culpa pela “tragédia” é do gramado, dos erros, da misericórdia ao conceder pontos, enfim.

Essa retórica em si não chega a ofender. Entendo que a Folha é dirigida primariamente aos leitores de São Paulo, portanto o foco das matérias são os times dessa localidade. Os jornais daqui de Salvador fazem o mesmo, portanto nada de novo sob o Sol. Mas não é isso que não dá para entender. O técnico do Vitória, Vágner Mancini, colocou os pingos nos is nessa questão, ao ser interpelado por um jornalista paulistano após a grande vitória rubro-negra contra o Corinthians, na capital paulista. Expôs o bairrismo evidente. Lembrou que o Brasil é muito grande, e não pode ser visto apenas por uma região só. Lição essa que, novamente, a Folha insiste em não aprender.

 

Caridade paulista em Salvador. Detalhe: Borja nem jogou ontem.

 

Não tem problema noticiar a derrota do Palmeiras e não a vitória do rubro-negro baiano. Agora dizer que os palmeirense “cederam” três gols ao Vitória, como uma mãe cede mais sobremesa ao filho depois do almoço, é uma afronta a inteligência do torcedor. Não só do torcedor do Vitória, mas por extensão a todo o torcedor nordestino. Que em pleno 2017 vê seu time colocado em segundo plano (ou até ignorado, como aconteceu com o Bahia). O Palmeiras não “cedeu” três gols. A realidade é que o Vitória aproveitou as oportunidades que criou, e venceu até com certa facilidade, definindo o marcador ainda no primeiro tempo. Mas isso é muito doloroso para ser admitido por redações como a da Folha. É como diz o ditado: errar é humano, mas persistir no erro é burrice. Parabéns ao Vitória pelo triunfo importante, e continuaremos de olho.

 

Por Ítalo Santana.

Italo Santana
Sobre Italo Santana 1 Artigo
Estudante de Jornalismo (Estácio). Editor e revisor de conteúdo.

1 Comentário

  1. É isso, o tratamento para os times do Nordeste é outro pela imprensa do Sul. Realmente alguns jornalistas bairristas não aprendem que o Brasil tem 05 regiões e que não se limita ao eixo Rio/São Paulo.

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